ERROS EM FILMES SOBRE PSICOPATAS
Há, no meu entender, três grandes erros na maioria dos filmes sobre psicopatas. Este artigo visa, de modo breve, expô-los e desmistificá-los.
O primeiro erro é retratar o psicopata adulto como alguém que sofreu abusos na infância. Ora, isso é falso. Quem foi vítima de maus tratos na infância nunca desenvolverá a psicopatia, transtorno da personalidade genético e herdado, não adquirido socialmente (cf. Hilda Morana. Sobre psicopatia. São Paulo: Sparta, 2024, p. 133).
O que pode – se tiver predisposição genética para tal – é o sujeito vir a desenvolver algum transtorno psíquico, não a psicopatia. É Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra carioca, quem nos diz o que segue: “Uma pessoa com predisposição genética a quadros de psicose e que seja submetida a situações de estresse constante (como no bullying, por exemplo) não é capaz de suportar. Isto é, a partir dos assédios morais sofridos, uma doença mental que ainda estava latente (adormecida) passa a gritar furiosamente, com distorções dramáticas da realidade” (Bullying. São Paulo: Principium, 2015, p. 57).
O segundo erro é tentar demonstrar que os psicopatas são muito inteligentes. Daí a capacidade que teriam – com seu QI elevado – de ludibriar a Polícia. Em resposta, cito Brian Boutwell, um dos pesquisadores da Universidade de St. Louis, no Missouri, ao afirmar que os psicopatas, na verdade, “são impulsivos, têm problemas com a lei e se machucam com frequência. Isso me levou a pensar que eles não são excessivamente inteligentes”. Após revisar 187 estudos de correlação entre inteligência e psicopatia, “a equipe não encontrou nenhuma evidência de que psicopatas são mais inteligentes. Pelo contrário, eles tiveram pior desempenho nos testes de inteligência” (Giselle Hirata. Psicopatas têm inteligência abaixo da média, diz estudo. Superinteressante, 27/01/2017, on-line).
Não é, portanto, como se vê, o psicopata quem tem inteligência brilhante, mas, infelizmente, são as forças policiais que quase sempre não sabem lidar com esse tipo de criminoso. O filme The Memory of a Killer ou Memória de um assassino (HBO Max, 2026) põe na boca do ator Patrick Dempsey a seguinte afirmação lamentável: “O tempo passa e os policiais continuam imbecis”. É urgente às forças policiais que atuam nas ruas uma formação básica sobre a diferença entre transtornos psicóticos e psicopatia, mas este saber lhes parece ser, via de regra, negado. Vitória para os psicopatas em ação e derrota à população de bem vitimada (incluindo, é certo, os próprios policiais militares ou guardas civis municipais) por esses predadores sociais. O Estado tem de reagir agora e oferecer essa matéria aos agentes da Segurança Pública.
O terceiro erro é dizer que, com certa idade, o psicopata se arrepende de seus atos maus e torna-se uma pessoa bondosa que passa a fazer caridade em lar de idosos, clínicas, ruas das cidades etc. Ora, o que se dá é exatamente o contrário. Com efeito, um hábil psicopata sempre dirá ao psiquiatra ou psicólogo que o avalia, na prisão, palavras aptas a iludir o examinador. Todavia, ao deixar a prisão, irá recair no crime. Conforme afirma a Dra. Hilda Morana, afamada psiquiatra forense brasileira: “O psicopata tem a natureza de psicopata, ou seja, é da natureza dele e ele não consegue ser diferente, por isso sempre vai reincidir na atividade cruel” (Sobre psicopatia, 2024, p. 22).
Acreditar que o psicopata mudou após passar alguns anos na cadeia é absurdo. Ana Beatriz Barbosa Silva nos garante: “A psicopatia não tem cura, é um transtorno da personalidade e não uma fase de alterações comportamentais momentâneas” (Mentes perigosas. São Paulo: Principium, 2018, p. 243).
Eis desmentidos sobre três mitos presentes em filmes a respeito dos psicopatas. É de se desejar que as tramas fossem mais cuidadosas. Fiquemos atentos!
Vanderlei de Lima é autor do livro Psicopatas: Quem são? Como agem? Que fazer com eles? Ed. Benedictus, 2025.
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