O POLICIAL MILITAR É PSICOPATA?

 

(Imagem gerada por IA)

Com certa frequência, policiais militares me fazem esta pergunta: “Professor, o policial militar é psicopata? Porque a nossa profissão parece estranha. Enquanto todos correm para se esconder dos criminosos, nós vamos de encontro a eles. Isso é natural?” O presente artigo responde que a atitude do PM é normal e, de modo conciso, explica o porquê.

De antemão, parece importante deixar claro o que segue: não quero, de modo algum, dizer que a Polícia Militar está, enquanto instituição, isenta de psicopatas. Digo sempre que a psicopatia é democrática, por isso independe de profissão, religião, país, classe social etc. Logo, na PM deve haver (e por certo há) indivíduos psicopatas. Todavia, o fato de querer ser ou de já ser policial militar não é um indicativo de psicopatia; e por que não?

Porque o psicopata é alguém com um defeito de caráter genético e herdado: nasce, vive e morre assim. Tal defeito, caracterizado pela normalidade das funções cognitivas, mas pela emocionalidade empobrecida, faz dele um egocêntrico por excelência (só pensa em si mesmo e vê o outro não como semelhante, e sim como marionete em suas mãos), sem sentimentos elevados de piedade, compaixão e altruísmo. Enfim, um predador social que por onde passa deixa os rastros inesquecíveis de sua crueldade, pois ser cruel é a sua grande marca (cf. Hilda Morana. Sobre psicopatia. São Paulo: Sparta, 2024, p. 20).

Dito isso, não é preciso grande esforço de raciocínio para perceber que as poucas características apontadas no psicopata estão – salvaguardados, como afirmávamos, casos particulares – ausentes do policial militar em si. Ao contrário, quem se põe a refletir, sem paixões exacerbadas, sobre a nobre missão do PM, não vê nele um egocêntrico, mas, em contraposição, grande abertura para o próximo com elevadíssimo sentimento de piedade, compaixão e altruísmo. Aliás, quer maior sentimento altruísta do que morrer, se preciso for, no lugar de terceiros que o policial sequer conhece? Ousaria perguntar se, agindo desse modo, o PM não está – no plano da fé cristã – cumprindo, ao menos por forte analogia, o que diz Cristo: “Ninguém tem maior prova de amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Mais: em ocorrências, ao atender a uma criança engasgada ou a uma mulher em trabalho de parto, não manifesta ele, de algum modo, sua piedade e compaixão para com quem está sofrendo? Ora, nunca, em nenhuma época da história ou qualquer lugar do mundo – nem sequer por um momento –, um psicopata foi convictamente capaz de agir assim; e jamais o será, pois ele é, por sua própria natureza deformada, incapaz de sentimentos tão humanos e nobres. Portanto, fica evidente que o policial não é psicopata apenas pelo exercício de sua honrosa profissão.

Resta ainda dizer algo a respeito do fato de ir ao encontro do perigo quando a imensa maioria das pessoas corre dele. Deixando à parte o já tratado lado altruísta de quem escolheu entregar a própria vida, se preciso for, a fim de salvar a do próximo, importa notar que há neste mundo valores perenes pelos quais vale a pena se arriscar com reto entusiasmo. Um deles é, sem dúvida, proteger o indefeso entregue a criminosos facínoras. Costumo, nas minhas respostas, repetir que a coragem do bandido e a do PM são a mesma: ambos se lançam no risco máximo. Há, entretanto, uma diferença imensa na finalidade (teleologia, em grego) de cada ação. Enquanto o criminoso envereda por uma conduta de propósito nocivo, o policial se entrega a uma atividade de finalidade altamente briosa e incomparavelmente superior à do transgressor da lei, psicopata ou não.

Eis o que, em breves palavras, sempre respondo aos PMs – homens e mulheres que, não obstante as dificuldades enfrentadas diuturnamente, se arriscam por você e por mim...


Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld e há nove anos ministra aulas esporádicas na Polícia Militar.

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